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Depois de uma ausência longa o suficiente para
se fazer sentir, um dos mais conceituados festivais portugueses voltou
com um cartaz ainda maior e mais focado no metal e que conta com uma
maior proporção de bandas internacionais.
Embora seja de louvar um cartaz de 45 bandas em que quase todas
elas são do agrado da maioria, acabou por ser alvo de algumas críticas
por parte de quem foi ao festival, dado que obrigou a que os concertos
começassem muito cedo e que muitas bandas tocassem uns míseros 30
minutos. As primeiras bandas de cada dia tinham assim um papel algo
ingrato uma vez que abrir para uma plateia quase vazia não é certamente
motivante, algo que se deveu não só ao calor mas também devido ao facto
de que à hora de início dos concertos muita gente ainda estava pela
vila de Vieira do Minho a fazer compras, levantar dinheiro, almoçar, ou
andava simplesmente pelo acampamento ainda a acordar e fazer a higiene
pessoal. Teria sido preferível reduzir um pouco o número de bandas em
cartaz e prolongar os concertos até mais tarde de modo a poder começar
os mesmos a uma hora um pouco mais favorável.
O local que dá o nome ao festival e onde este se realiza, a Ilha do
Ermal, não poderia ser melhor, proporcionando por si só um ambiente
agradável para se estar e permitindo ainda tomar uns banhos para
refrescar nas horas de maior calor ou nos intervalos dos concertos sem
necessidade de sair do recinto. Esta foi aliás uma das grandes
tentações dos festivaleiros, acabando muitos por preferir ficar na água
em vez de assistir aos concertos. Infelizmente o local do festival
ficava um pouco longe da estrada principal onde as pessoas eram
obrigadas a deixar os carros, estrada essa que não permitia muitos
lugares para estacionar perto do local onde estava a barreira montada
pela organização do festival. Existiam autocarros gratuitos vindos de
Vieira do Minho de hora a hora que faziam uma paragem junto a essa
mesma barreira para apanhar mais pessoas que desejavam boleia para mais
próximo do local do festival, no entanto no primeiro dia ninguém
avisava sobre a existência da paragem desses autocarros ali naquela
zona e devido ao tempo que decorria entre cada autocarro, muitas
pessoas optavam por fazer mais de 20 minutos a pé carregadas com tendas
e outros sacos até ao acampamento.
 As condições gerais do recinto eram bastante boas. O acampamento
era espaçoso o suficiente, com solo bom para colocar as estacas das
tendas, e ainda alguma sombra, no entanto à noite essa mesma sombra
bloqueava completamente em certas zonas a iluminação existente e
obrigava ao uso de lanternas, algo perdoável. O ponto negativo vai no
entanto para os urinóis e retretes colocados no meio da passagem de um
dos níveis do acampamento, obrigando a que qualquer pessoa que quisesse
aceder a esse nível tivesse de apreciar o aroma dos excrementos
humanos. Algo de que não dei conta mas que no entanto foi bastante
falado pelos festivaleiros, foi as condições de higiene das retretes,
dando a ideia de que estas não foram limpas durante os 3 dias do
festival. Os chuveiros presentes no acampamento foram do agrado da
maioria dos campistas, não havendo queixas em relação à temperatura ou
pressão da água, nem mesmo em relação à higiene do local.
A nível de restauração o festival estava bastante bem servido,
tendo desde os hamburgers e chachorros da praxe a pizzas, kebabs,
sandes, entre outros, a preços que não eram propriamente baratos mas
que no entanto também não levavam à falência. A cerveja, elemento tão
essencial à vida de qualquer metaleiro como a água é a qualquer ser
humano, estava a €1.50 em todos os estabelecimentos, sendo que o único
factor de escolha residia na maneira como esta era tirada. Fez falta a
existência de packs de várias cervejas que permitissem um preço mais
reduzido por cada cerveja. Havia ainda um bar aberto 24 horas por dia
junto ao campismo que era frequentado não só pelos resistentes da noite
mas também por quem acordava de manhã e ainda não estava pronto para os
concertos, os preços eram semelhantes aos dos praticados dentro do
recinto e servia-se tanto bebidas como comida.
Passando ao que atrai as pessoas a um festival, infelizmente não
vou poder falar dos 45 concertos, por isso vou apenas falar dos
destaques.
 Os One Man Army & the Undead Quartet eram um dos nomes fortes
do cartaz e que certamente criaram expectativa para muita gente que
esperava deles um bom concerto. Apesar de não haver grande agitação no
público, a banda fez o que muitos esperavam, um bom concerto, e manteve
sempre uma postura de quem já está bastante à vontade em cima dos
palcos, sendo sempre bastante expressivos e mantendo um bom ritmo. Não
foi um concerto daqueles que ficam para a memória no entanto.
Os The Temple conseguiram mostrar que mesmo depois de uma longa
ausência dos palcos e alteração na formação devido a uma lesão do
anterior vocalista ainda mantêm a mesma atitude e o lema “rock now,
society later” está bem vivo. Apesar de algumas falhas do novo
vocalista, nomeadamente na música “Fightbull”, nota-se a motivação e
empenho do mesmo através da sua presença em palco, e estou confiante
que dando-lhe tempo suficiente ele vai ao sitio e não terá de enfrentar
comentários de que o vocalista anterior fazia as coisas desta ou
daquela maneira.
O concerto dos Dark Moor no geral não impressionou, ficando apenas
marcado pelo duelo entre o guitarrista e o baixista, onde foi exibida a
excelente técnica dos músicos mas também houve espaço para algum humor.
Os Disbelief eram umas das bandas que eu mais antecipava ver de
todo o cartaz, no entanto o concerto foi completamente estragado pela
péssima qualidade de som. Não estamos a falar de som distorcido ou
instrumentos em falta, mas sim de um atraso abusivo entre as várias
colunas que criava a sensação de estar a ouvir duas músicas em
simultâneo.
A banda holandesa Textures deixou muita gente curiosa, uma vez que
muita gente já tinha ouvido falar neles mas poucos já os tinham ouvido.
O concerto apesar de ter agradado bastante a alguns, não teve o mesmo
efeito noutros para quem foi algo inconsistente uma vez que a
sonoridade da banda teve passagens de hardcore, metalcore, death metal
e até mesmo progressivo.
 Os Obituary conseguiram acordar algumas das pessoas que ainda não
tinham tomado consciência que estavam num festival de metal. Deram um
bom concerto passando por algumas das malhas mais conhecidas e deixaram
o público satisfeito.
A banda Firewind, à semelhança da maior parte das bandas de power
metal que passaram pelo festival, não conseguiu cativar muito o
público, sendo que muita gente optava por começar a caminhar para as
tendas ou simplesmente conviver junto às barracas da cerveja.
Os My Enchantment vieram mostrar mais uma vez que estão
confortáveis nos palcos e sabem como tocar para qualquer público que
esteja ali para os ver. Uma grande banda que se tem feito sobressair do
underground nacional cada vez mais.
Os também nacionais EAK tiveram também uma boa prestação numa
actuação um pouco teatral e que deu um novo sentido a “amar a música”.
Uma boa sonoridade, juntamente com alguma provocação bem humorada.
Os Wykked Wytch chamaram mais a atenção não tanto pela sua música
mas mais pelo visual de toda a banda. No entanto foi um bom concerto
para a maioria, embora tenha havido claro quem não conseguisse pôr de
lado o aspecto da banda e tenha posto isso à frente da música.
Os portugueses WAKO vieram mais uma vez mostrar a qualidade do
metal oriundo do chamado Texas ribatejano. Assim que sobem ao palco
agarram logo no público e ninguém fica indiferente à actuação.
Infelizmente o concerto teve de terminar mais cedo devido a problemas
técnicos.
Os Heavenwood deram um concerto um pouco desenquadrado do resto do
festival, chegando a ser até enfadonho, conseguindo cativar apenas por
breves e ocasionais momentos.  Já noutros eventos onde prevalece a
música mais pesada notei que o publico não mostrava grande entusiasmo
pelo concerto desta banda, no Ermal o sentimento foi igual.
Os Hatesphere mais uma vez arrasaram em palco. Boa música sempre a
abrir acompanhada de uma grande dose de energia em palco, é disto que é
feito o rock. Palavras para quê?
Sepultura como seria de esperar eram a banda que muita gente estava
ali para ver naquele dia. O thrash made in Brasil ainda tem força e
toda a gente conhecia as músicas e delirou com o concerto, apesar do
que muita gente possa dizer sobre a qualidade de trabalhos recentes da
banda.
Korpiklaani foram uma escolha para cabeça de cartaz do segundo dia
incompreendida por muitos, no entanto tendo em conta que é uma banda
que cria ambiente de festa propício a beber e ficar alcoolizado, é
natural que fiquem para o fim. Foi um bom concerto que animou toda a
gente que ainda ficou no recinto para ver o concerto.
Os Nimim foram uma agradável surpresa e que tenho pena que não
estivesse em frente ao palco mais gente para os ver actuar. A banda
tinha uma boa sonoridade com uma mistura equilibrada entre música
electrónica e um rock e metal de tendências industriais e groove.
Destaca-se ainda a boa presença em palco e a interactividade que os
membros da banda tinham entre si. A banda transparecia o gozo que
estava a ter em tocar, e isso por si só já faz ter gosto em ver a banda
a tocar.
Os Switchtense já nos habituaram a concertos bem a rasgar e que não
deixa ninguém indiferente. Tal só acontece não só devido à qualidade
das músicas mas principalmente devido à paixão e entrega que os músicos
fazem transparecer, incentivando o público a fazer parte de algo.
Sem dúvida os reis do thrash em Portugal, os Pitch Black que agora
contam com um novo vocalista ofereceram ao público meia hora de pura
destruição com temas clássicos já bem conhecidos do público e ainda
alguns do novo álbum.
Apesar da qualidade inegável da banda Meneater, este foi um
concerto um pouco desenquadrado do alinhamento mais pesado do resto do
cartaz e que se revelou um pouco aborrecido para um público que tinha
recebido uma dose de metal a abrir. A pouca presença em palco da banda
também não ajudou e o resultado foi um público estático.
Os Ramp acabaram por ser uma surpresa. Apesar dos comentários de
que a banda já estava um pouco perdida e de elementos da banda terem
estado a trabalhar durante todo o festival como roadies, a banda
mostrou que ainda tem energia para vender e oferecer. Foi assim
proporcionado um bom concerto com garra do princípio ao fim e os Ramp
mostraram porque é que sendo um dos nomes mais antigos do metal em
Portugal ainda aí andam na estrada enquanto outros foram sendo
esquecidos.
Os Blind Guardiam estiveram pela primeira vez em Portugal e muitos
eram os que estavam na plateia para assistir a essa estreia. O público
vibrava com cada música e conhecia a letra das mesmas, cantando-as com
a banda e mostrando a cada momento que estava a adorar, algo que a
banda percebia e fazia questão de retribuir.
Todas as noites depois dos concertos havia ainda mais música a
passar pelas mãos de António Freitas para satisfazer quem ainda
sobrevivia e não tinha vontade de ir para as tendas. Embora no geral
fossem proporcionados bons momentos, principalmente na primeira noite,
houve momentos em que a repetição dos temas passados já se fazia sentir
em demasia. O Freitas mostrava bem as suas origens baseadas no metal da
velha guarda, passando ocasionalmente temas de bandas mais recentes, no
entanto ficou por se fazer ouvir muita banda tanto recente como mais
antiga.
O número de elementos das forças de segurança presentes no recinto
era de louvar, o que contribuiu para que não houvessem desacatos nem
roubos a relatar. No entanto, por vezes ficava a sensação de estar
montada uma caça ao homem devido a algumas medidas um pouco exageradas
e elementos da GNR um pouco mal humorados que não perdoavam nada e
reagiam demasiado impulsiva mente e de forma quase que forçada, o que
acabou por aquecer um pouco os ânimos com alguns elementos do público
menos sóbrios.
Muitas foram as pessoas que decidiram voltar para casa apenas na 2ª
feira de manhã para evitar fazer longas viagens durante a noite. Essas
pessoas no entanto ao acordar depararam-se com uma ausência total de
elementos das forças de segurança ou membros do staff do festival,
ninguém diria que ainda há umas horas atrás tinha havido ali um
festival. Seria de esperar que fosse possível encontrar alguém a quem
pedir informações.
Apesar de algumas falhas existentes, a Dream Seductions está de
parabéns pelo festival, é de louvar a maneira como foram capazes de
trazer de volta o festival da Ilha do Ermal. No geral foi uma
experiência a repetir, e esperemos que o festival tenha voltado para
ficar.
Mais fotos
Texto por: Luís "Slide" Rodrigues Fotos por: Luís "Slide" Rodrigues e Filipe "Mütiilator" Gomes
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